Galpões como ativos de energia: o custo de não prever
Análise sobre galpões logísticos como ativos de energia: potencial fotovoltaico, Net Zero x LEED Zero, impactos da NBR 17193, eletrificação de frotas e o custo de não prever infraestrutura energética desde o projeto.
A pergunta que me persegue há alguns anos não é se galpões logísticos vão se transformar em ativos de energia. Isso já está acontecendo. A pergunta é outra:
quantos projetos estamos entregando hoje que precisarão de reformas caras em menos de uma década?
Telhados imensos, consumo previsível, operações que exigem resiliência energética. Galpões logísticos têm todas as características de uma usina de energia esperando para acontecer. E no entanto, menos de 5% do potencial fotovoltaico desses telhados no Brasil está sendo aproveitado. Segundo levantamento da JLL, o estoque total de galpões logísticos no país alcança 34,4 milhões de metros quadrados, com previsão de mais 2,9 milhões entregues em 2025. Aplicando os parâmetros da ABSOLAR, essa área de cobertura representa potencial de geração de aproximadamente 2,9 GW — o equivalente a duas usinas hidrelétricas de médio porte.
Por que esse potencial permanece inexplorado? A resposta envolve estrutura, normas, infraestrutura elétrica e, principalmente, a forma como projetamos. A maioria dos galpões ainda é concebida como simples metros quadrados de piso, não como ativos energéticos integrados.
Net Zero e LEED Zero: a diferença que muda o projeto
Net Zero é um conceito de desempenho energético: significa que uma edificação produz, ao longo de um ano, tanta energia quanto consome. O balanço entre geração e consumo é zero — daí o nome.
LEED Zero, por sua vez, é uma certificação do USGBC (U.S. Green Building Council) que audita se o edifício realmente atingiu esse desempenho, exigindo 12 meses de operação documentada. A diferença é importante: qualquer empreendimento pode se declarar Net Zero, mas poucos conseguem provar.
A distinção importa porque muda a forma de projetar. Para alcançar LEED Zero Energy, a estratégia testada segue uma hierarquia clara: primeiro, maximizar a eficiência do edifício; depois, instalar geração renovável no próprio terreno; e só então, se necessário, compensar com energia renovável externa ou créditos de energia renovável para fechar o balanço.
Essa hierarquia não é arbitrária. Sistemas ativos — painéis solares, baterias, automação — não compensam uma envoltória mal projetada ou instalações ineficientes. O edifício precisa ser eficiente antes de ser gerador.
No Golgi Duque de Caxias — condomínio logístico de 61.353 m² de ABL com certificação LEED Platinum que coordenei para a SGO Construções — aprendi que todo requisito de certificação tem um custo associado. A pergunta “vale a pena?” aparece em toda reunião. A resposta que aprendi a dar: para empresas com visão de longo prazo, certificação ambiental deixou de ser diferencial competitivo. Virou exigência contratual. Ocupantes corporativos cobram ESG. Fundos precificam o risco de não ter.
Painéis solares: o desafio começa no telhado
Instalar painéis fotovoltaicos em coberturas de galpões parece simples até você olhar para a estrutura. Sistemas solares adicionam entre 13 e 15 kg/m² ao telhado — considerando módulos e estrutura de fixação. É um peso similar ao da própria cobertura metálica em muitos casos.
Estudos internacionais indicam que apenas cerca de 25% dos telhados comerciais existentes estão plenamente aptos a receber essa carga adicional sem reforços estruturais. Reforços custam.
A questão não é se vale a pena instalar painéis solares — vale, com retorno típico entre 3 e 5 anos e rentabilidade de 20% a 35% ao ano. A questão é se o telhado foi projetado para isso. Para novos empreendimentos, a resposta deveria ser sempre sim. Projetar estruturas que suportem as cargas dos coletores solares desde o início adiciona custo marginal. Fazer adaptações depois multiplica esse custo várias vezes.
O que a NBR 17193:2025 mudou
A publicação da NBR 17193:2025 transformou o cenário de segurança contra incêndio em sistemas fotovoltaicos no Brasil. Não é mais opcional seguir boas práticas — agora é normativo.
Os principais requisitos incluem o Rapid Shutdown, que exige que o sistema interrompa a tensão em até 30 segundos após acionamento, garantindo segurança para bombeiros. Há também a proteção AFCI, obrigatória para sistemas maiores, que detecta arcos elétricos e desliga o circuito antes que se tornem fonte de ignição.
A norma estabelece ainda afastamentos obrigatórios: a cada 16 metros lineares de painéis, são necessários 2 metros de corredor — ou barreiras resistentes ao fogo. Isso reduz a área útil para geração em cerca de 10% a 15%, mas é inegociável. Sistemas sobre coberturas combustíveis sem tratamento adequado estão proibidos, e sinalização de pontos de seccionamento e rotas de acesso é obrigatória.
Estados como Minas Gerais, Goiás, Distrito Federal e Mato Grosso já convergem para esses requisitos, sinalizando padronização nacional.
Casos que servem de alerta
Incêndios em galpões com sistemas fotovoltaicos não são ficção. Segundo investigação da CNBC, a Amazon registrou 47 incêndios relacionados a painéis solares em seus centros de distribuição entre abril de 2020 e junho de 2021. O caso mais grave ocorreu em Fresno, Califórnia, onde 220 painéis foram destruídos em um incêndio. A empresa desligou todos os sistemas solares nos EUA após os incidentes. Um relatório interno admitiu: “A taxa de incidentes perigosos é inaceitável e acima da média do setor.” (Fonte: CNBC, setembro/2022)

O padrão que emerge desses incidentes é consistente: quase todos envolveram sistemas instalados antes da adoção de requisitos modernos de segurança. A lição é clara — conformidade normativa não é burocracia, é proteção patrimonial. E seguros invalidados por não conformidade transformam incidentes em catástrofes financeiras.
Infraestrutura para frotas elétricas: o desafio invisível
Se painéis solares transformam telhados em usinas de geração, a eletrificação de frotas transforma docas em centros de consumo massivo. E aqui o planejamento antecipado é ainda mais crítico.
Um carregador rápido para caminhões opera entre 150 e 350 kW. Carregadores de nova geração, já disponíveis comercialmente, entregam entre 1,0 e 1,2 MW — com especificações que permitem até 3,75 MW. Para ter uma dimensão: um único caminhão elétrico de longa distância pode demandar mais potência que um pequeno condomínio residencial.
Multiplique isso por uma frota operando em um centro de distribuição. A demanda agregada pode ultrapassar 20 MW. Não existe concessionária que entregue essa capacidade sem planejamento prévio de 12 a 36 meses. Subestações dedicadas tornam-se obrigatórias, e o custo de ampliação de rede, quando não previsto em contrato, recai sobre o proprietário do imóvel.
A questão não é se veículos elétricos vão chegar às frotas logísticas — a transição já começou. A questão é se a infraestrutura elétrica dos galpões estará pronta quando a demanda surgir.
O que precisa ser previsto hoje
Para evitar reformas proibitivas no futuro, novos empreendimentos deveriam incluir desde a concepção alguns elementos básicos. Dutos subterrâneos, caixas de passagem e bases para carregadores em áreas estratégicas custam uma fração do valor de quebrar piso e refazer pavimentação depois. Dimensionar barramentos e proteções no quadro geral para demanda futura, mesmo sem instalar carregadores imediatamente, evita troca de equipamentos caros. Reservar área física para ampliação de subestação e iniciar diálogo com a concessionária antes do projeto executivo são passos que parecem prematuros, mas fazem diferença enorme no custo final.
Sistemas inteligentes de gerenciamento de carga podem otimizar a proporção de veículos por carregador para até 5:1, usando filas baseadas em horários de operação e tarifas. Mas isso exige infraestrutura de dados e automação que também precisa ser prevista desde o início.
Baterias: quando o galpão vira usina virtual
A integração de sistemas de armazenamento por baterias muda completamente a equação. Com baterias, um galpão pode armazenar energia em horários de tarifa baixa e usar durante picos, reduzindo demanda contratada e custos operacionais. Pode fornecer energia de volta à rede durante momentos de alta demanda do sistema elétrico, gerando receita adicional. E pode manter operações críticas funcionando em caso de falhas na rede, garantindo resiliência que operações logísticas exigem.
Estudos mostram que otimização com baterias pode reduzir pico de demanda em 64% a 75% e custo operacional por veículo em 30% a 37%.
A viabilidade depende de perfil de consumo, tarifa local, disponibilidade de geração solar e estratégia de eletrificação. Mas a tendência é inequívoca: galpões estão se tornando nós ativos na rede elétrica, não apenas consumidores passivos.
Coordenação multidisciplinar: onde os projetos falham
Projetar um galpão preparado para esse futuro é como reger uma orquestra onde cada músico recebeu partituras diferentes. O arquiteto pensa em volumetria. O engenheiro calculista estrutural calcula cargas convencionais. O engenheiro eletricista dimensiona para demanda atual. E quando alguém pergunta sobre painéis solares ou carregadores, a resposta costuma ser "isso fica para depois".
Essa abordagem não funciona. Sistemas fotovoltaicos afetam estrutura, impermeabilização, proteção contra descargas atmosféricas, combate a incêndio e seguros. Carregadores afetam entrada de energia, cabeamento, automação e layout de áreas especiais para carregamento. Baterias afetam espaço físico, ventilação, segurança e operação. Certificações ambientais afetam praticamente tudo.
A coordenação multidisciplinar não é um luxo — é o que separa projetos que funcionam de projetos que viram casos de reforma cara. Essa coordenação precisa começar na concepção, não no desenvolvimento do projeto executivo. Decisões tomadas no estudo preliminar determinam limites que nenhuma engenharia posterior consegue contornar: altura de pé-direito, espaçamento de pilares, áreas para recarga, capacidade de entrada elétrica, reserva de área técnica.
O horizonte que se desenha
Linhas de financiamento já reconhecem essa transformação. O BNDES oferece condições atrativas para projetos de baixo carbono por meio da linha Finame Baixo Carbono, com financiamento de até 100% em prazos de 10 anos e taxa de 0,95% a.a. do BNDES. Bancos comerciais têm linhas específicas para energia solar e eficiência energética.
Casos brasileiros validam o modelo. A Petinelli Curitiba foi o primeiro LEED Zero Energy do mundo — um edifício que produz 125% da energia que consome. O Prologis Galpão 400 opera em Net Zero carbono. Galpões logísticos têm potencial para liderar essa transição no Brasil.
Mas cada projeto é único. Localização, perfil de ocupante, estratégia de frota, disponibilidade de rede — tudo influencia a viabilidade. O que não muda: o custo de não prever é sempre maior que o custo de prever.
Pontos de atenção para quem está projetando agora
Algumas orientações práticas para quem está desenvolvendo projetos neste momento.
Sobre estrutura e painéis: considerar a carga do coletores solares desde o anteprojeto, porque reforços posteriores custam várias vezes mais; prever os afastamentos exigidos pela NBR 17193 no layout de cobertura; compatibilizar com os sistemas de ventilação e iluminação natural; especificar sistemas com dispositivos de segurança de fábrica, não adaptados depois.
Sobre infraestrutura elétrica: iniciar diálogo com a concessionária antes do projeto executivo, porque prazos de ampliação de rede são longos; dimensionar entrada para demanda futura, não apenas atual; deixar infraestrutura civil pronta para carregadores, mesmo sem instalá-los imediatamente.
Sobre certificações: lembrar que LEED Zero exige 12 meses de operação documentada — é selo de desempenho, não de projeto; que a hierarquia de eficiência primeiro não é sugestão; e que reter créditos de energia renovável da geração própria é essencial se a meta for certificação Zero.
Sobre coordenação: integrar energia ao programa de necessidades desde o início; garantir que decisões preliminares considerem cenários de 10 a 15 anos; documentar premissas de projeto, porque elas serão questionadas.
Conclusão que não é conclusão
A pergunta com que comecei — quantos projetos entregamos hoje que precisarão de reformas caras — não tem resposta simples. Depende de decisões que tomamos agora, muitas vezes sob pressão de cronograma e orçamento.
O custo de energia vai continuar subindo. A eletrificação de frotas vai acelerar. Certificações ambientais vão passar de diferencial a requisito. Normas de segurança vão se tornar mais rigorosas. Incorporadores que tratarem galpões como ativos de energia — não apenas como metros quadrados de piso — vão capturar valor que outros deixarão na mesa.
Ainda estou aprendendo qual balanço faz sentido para cada projeto. Mas uma coisa aprendi: esperar para ver é a decisão mais cara de todas.
Sérgio Salles é arquiteto, mestre em construção civil, gestor de projetos e professor na PUC Minas. Atua no desenvolvimento, coordenação e pesquisa aplicada em construção industrializada, integrando engenharia, método e tecnologias emergentes na construção civil. Saiba mais sobre sua trajetória em projetos e obras.
Referências
ABSOLAR – Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica. Parâmetros de potencial de geração em coberturas.
ABNT NBR 17193:2025 – Sistemas fotovoltaicos em edificações – Requisitos de segurança contra incêndio.
BNDES – Linha Finame Baixo Carbono. Condições de financiamento para projetos de energia renovável e eficiência energética.
CNBC – “Amazon took all U.S. solar rooftops offline last year after flurry of fires, electrical explosions.” Setembro/2022. Disponível em: https://www.cnbc.com/2022/09/01/amazon-took-solar-rooftops-offline-last-year-after-fires-explosions.html
JLL – Annual Latin America Industrial Market Overview 2025. Maio/2025.
TÜV Süd – Estudos sobre capacidade estrutural de telhados comerciais para instalações fotovoltaicas.
USGBC – U.S. Green Building Council. Programa LEED Zero e requisitos de certificação.