Industrialização na construção: o custo de esperar para ver

Impressão 3D, escassez de mão de obra e Reforma Tributária estão acelerando a industrialização da construção. O custo real não é inovar — é ficar parado.

Impressão 3D de parede de concreto
Impressão 3D - paredes de concreto (Alquist3D)

Em Athens, Tennessee, um braço robótico imprimiu paredes de concreto em 45 dias. O projeto atrasou. Custou igual ao método tradicional. E o Walmart já planeja fazer de novo — em mais de 200 expansões.

Essa frase diz tudo sobre onde estamos na industrialização da construção.

Inovar tem custo. Mas existe um custo maior: o custo de ficar parado enquanto o mercado, a legislação tributária e o mercado de trabalho se movem ao mesmo tempo na direção oposta à construção convencional.


O que Athens nos ensina sobre inovar de verdade

Em 2024, o Walmart executou a expansão de um Supercenter em Athens, Tennessee usando impressão 3D de concreto — manufatura aditiva — pela primeira vez em escala comercial significativa nos Estados Unidos. A estrutura: 743 m², 6 metros de altura, executada pela Alquist 3D em parceria com a empreiteira tradicional FMGI.

Os resultados não foram os prometidos.

O calor e a umidade do verão no Tennessee superaqueceram o concreto — a equipe mudou o cronograma para impressão noturna. A bomba original da Alquist era incompatível com o material. Mangueiras entupidas viraram problema recorrente. Licenças de construção locais geraram atrasos adicionais: a regulamentação para esse tipo de estrutura simplesmente não existia. Resultado: o projeto terminou semanas fora do prazo, com custo equivalente ao da construção convencional.

Mas atenção. O Walmart não recuou.

Mike Neill, VP de Construção do Walmart EUA, manteve o tom: "Walmart está sempre buscando inovar e aproveitar tecnologias em desenvolvimento... decidimos que era uma direção que valia a pena explorar." A empresa tem expansões planejadas. A impressão 3D está no mapa.

Zack Mannheimer, fundador da Alquist, foi direto sobre o que Athens representou: "Isso faz parte do desafio de introduzir uma nova tecnologia ao mundo. Alguns projetos vão correr muito bem e outros serão desafiadores."

Minha leitura: Athens não foi um fracasso. Foi um investimento em curva de aprendizado. A diferença entre empresas que inovam de verdade e as que ficam na conversa sobre inovação está exatamente aqui: as primeiras pagam o preço do erro documentado. As segundas esperam — e depois pagam o preço da irrelevância.

No Brasil, esse caminho está começando. O HubIC da USP, coordenado pelo Prof. Rafael Pileggi, lidera a pesquisa. A Cosmos 3D, na região metropolitana de Belo Horizonte, já comercializa soluções.

A tecnologia tem limitações claras: funciona para edificações baixas, não resolve fundações, coberturas ou instalações. É uma ferramenta no arsenal industrializado, não a solução completa.


A industrialização em obras comerciais no Brasil

Nos últimos anos, projetei e gerenciei quase dez supermercados e atacarejos — todos concebidos com sistemas industrializados: pré-moldado de concreto, estrutura metálica e fechamentos com componentes fabricados fora do canteiro.

A pergunta que esses projetos respondem sem querer: por que a industrialização na construção chegou antes para o varejo?

A razão é simples, e cabe em um número. Uma rede varejista que atrasa a abertura de uma loja em quatro semanas perde, em média, o equivalente a quatro meses de aluguel do ponto — em receita que não existiu. Para quem gerencia expansão com dezenas de lojas simultâneas, essa conta não precisa de planilha. É intuição financeira.

O pré-fabricado de concreto e a estrutura metálica oferecem o que o canteiro artesanal raramente consegue: cronograma previsível. Fabricação em paralelo à fundação. Montagem que independe de clima. Interfaces entre sistemas prediais — elétrico, hidráulico, HVAC — que podem ser planejadas com precisão porque as tolerâncias são industriais, não artesanais.

Nas entrelinhas: o varejo não industrializou por visão. Industrializou por pressão de margem. E funciona.


Os vetores que tornam a industrialização inevitável para todos

O que o varejo aprendeu na marra, os demais segmentos vão aprender pela combinação de quatro pressões simultâneas.

Escassez de mão de obra. A Sondagem do FGV IBRE (maio/2025) registra que 36,9% das empresas de construção apontam a falta de trabalhadores qualificados como principal entrave. Em empresas de serviços especializados, esse número sobe para 44,7%.

O Sintracon-SP documenta queda de 3,2 milhões para 2,7 milhões de empregados diretos na última década. Mestres de obra, pedreiros e carpinteiros não estão sendo repostos. A nova geração prefere a jornada flexível dos aplicativos — Uber, 99, iFood, Rappi — ao canteiro de obras.

Sustentabilidade como exigência, não diferencial. O setor da construção civil gera 38% das emissões globais de CO₂ e consome 30% dos recursos do planeta. O desperdício de materiais na construção convencional pode chegar a 25% em peso (ABDI, 2015). Certificações ambientais e metas de carbono incorporado já são requisitos de financiamento em projetos de médio e grande porte. Quem não tiver como evidenciar controle de desperdício vai perder acesso a essas linhas.

A Reforma Tributária como game changer. A Lei Complementar nº 214/2025 encerrou uma distorção histórica: o sistema anterior (IPI + ICMS + ISS diferenciados) tornava a produção offsite — fora do canteiro — mais tributada do que o trabalho artesanal in loco.

Com o IVA Dual, insumos e serviços industrializados passam a gerar créditos. José Carlos Martins, da CBIC, foi claro: "A reforma tributária induz a industrialização da construção, com diversos outros ganhos, como a redução de problemas de pós-obra." A transição vai de 2026 a 2033 — o mercado que se preparar agora vai carregar menos peso nessa curva.


O ecossistema que falta e o que fazer enquanto ele se forma

A industrialização não escala sozinha. Ela precisa de um ecossistema: fabricantes com capacidade, normas técnicas atualizadas, profissionais de projeto capacitados e escala de demanda para diluir investimentos.

Esse ecossistema ainda está incompleto no Brasil. Mas está se formando. E a velocidade vai aumentar com a Reforma Tributária criando incentivo tributário real para o offsite.

O problema é que quem esperar o ecossistema estar completo para entrar vai competir contra quem já estiver operando com eficiência industrializada há cinco anos.

Três movimentos concretos para iniciar agora:

  1. Revise o processo de projeto. Antes de decidir qual sistema industrializado adotar, verifique se seu fluxo de projeto — da concepção à compatibilização — está preparado para especificar, detalhar e documentar montagem. Sem isso, o sistema certo vira problema errado.
  2. Mapeie o custo real da última obra convencional. Retrabalho, atraso, mão de obra extra, custo indireto da equipe de campo resolvendo imprevistos. Essa conta revela o tamanho do problema que a industrialização resolve — e justifica o investimento em projeto e capacitação.
  3. Mantenha uma lista curta de tecnologias em observação. Não precisa adotar tudo. Precisa saber o que existe, quem está testando e o que os testes estão mostrando. HubIC, ABCP, fabricantes de pré-moldado e empresas como a Cosmos 3D publicam material. O mercado que monitora aprende mais barato.

A decisão que já foi tomada por você

O mercado de trabalho, a legislação tributária e as exigências ambientais já decidiram que a construção industrializada vai crescer. Inovar deixou de ser diferencial competitivo. Virou condição de permanência no mercado. A única variável que ainda está em aberto é quais empresas e profissionais vão liderar essa transição — e quais vão chegar atrasados, pagando mais pela curva de aprendizado que outros já fizeram.

O Walmart experimentou em Athens. Documentou. Ajustou. E está planejando os próximos projetos.

A pergunta para quem lê este texto não é se a industrialização vai chegar ao seu mercado. Já chegou ao varejo e ao atacado. A pergunta é: quando vai chegar ao seu nicho — e você já começou a pagar o preço da aprendizagem, ou ainda está pagando o preço de não aprender?

Esperar para ver é a decisão mais cara de todas.


Sérgio Salles é arquiteto, mestre em construção civil, gestor de projetos e professor na PUC Minas. Atua no desenvolvimento, coordenação e pesquisa aplicada em construção industrializada, integrando engenharia, método e tecnologias emergentes na construção civil. Saiba mais sobre sua trajetória em projetos e obras.


Referências:

  1. ABRAMAT/ABCIC — O que precisamos para Crescer / Construção Industrializada: 10 Benefícios
  2. FGV IBRE — Sondagem da Construção (maio/2025)
  3. Sintracon-SP — Dados de emprego na construção civil
  4. Lei Complementar nº 214/2025 — Reforma Tributária
  5. ABDI — Manual de Construção Industrializada (2015)
  6. Wall Street Journal — Walmart Explores 3D Printing (2024)
  7. Alquist 3D — Relatório de projeto Athens, Tennessee (2024)
  8. HubIC — Escola Politécnica da USP
  9. Cosmos 3D — cosmos3d.tech
  10. BSSP Consulting — Estudo de impacto da Reforma Tributária na construção
  11. CBIC — Declaração José Carlos Martins