Infraestrutura bilionária no espaço — e a oportunidade logística que passa na sua rua
Enquanto Google e SpaceX investem bilhões em datacenters, a logística de última milha brasileira opera na calçada. A oportunidade real está nos micro-centros de distribuição urbanos — e quem projeta essa infraestrutura define o próximo ciclo.
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O que me chamou atenção...
O recurso mais disputado da nova economia não é software. É infraestrutura física. Quem projeta e constrói está no centro dessa disputa. Duas coisas me fizeram parar.
A primeira: o Google (via Alphabet) pagou US$ 4,75 bilhões pela Intersect — empresa que constrói datacenters com geração de energia própria. O motivo é direto: a rede elétrica americana não dá conta. Equipamentos prontos, parados por falta de energia.
O Google não comprou tecnologia. Comprou eletricidade — o equivalente à capacidade de Itaipu em projetos de geração.
A segunda: a SpaceX protocolou na FCC — a agência que regula telecomunicações nos EUA — o pedido para 1 milhão de satélites funcionando como datacenters orbitais. Energia solar contínua, sem rede elétrica, sem terreno. A fusão recente com a xAI avalia o conjunto em US$ 1,25 trilhão.
Mas o que realmente mexeu comigo foi outro dado.
Enquanto bilhões sobem para a órbita, a logística brasileira opera no passeio.
Na semana passada, ao deixar meu filho na escola às 7 da manhã, vi uma cena que se repetiu por dias. Em uma rua da região centro-sul de Belo Horizonte, cinco carros parados e entregadores separando produtos de e-commerce na calçada.
Sem estrutura. Sem cobertura. Sem endereço fixo. A logística de última milha improvisada — porque não existe infraestrutura para absorver essa operação.
Os números confirmam. A vacância de galpões logísticos no Brasil fechou 2025 em 6,56% — mínima histórica. O déficit projetado para 2026 chega a 500 mil m² só em ativos de alto padrão.
O Mercado Livre acaba de anunciar R$ 57 bilhões de investimento no Brasil em 2026, incluindo 14 novos centros de distribuição. E a penetração do e-commerce no Brasil ainda é de 17% — nos EUA, 27%; na China, 32%.
A demanda por infraestrutura logística mal começou. Micro-centros de distribuição para última milha em São Paulo já alcançam R$ 45/m².
O ponto
A oportunidade mais concreta não está na órbita. Está a poucos quilômetros do consumidor.
Micro-centros de distribuição para última milha — instalações de 500 a 10.000 m², dentro da malha urbana, projetadas para despachar pedidos em poucas horas — são o elo que falta entre o CD de grande porte na rodovia e a porta do cliente.
Mas não basta converter qualquer imóvel existente.
Piso para carga concentrada de estantes verticalizadas. Pé-direito que permita armazenagem densa. Docas para vans e veículos elétricos. Preparação para automação desde o projeto.
A diferença entre um retrofit que funciona e dinheiro perdido está na integração entre arquitetura, estrutura e sistemas no estudo preliminar — não na adaptação depois.
Acompanho essa transição desde 2006, quando gerenciei o primeiro projeto de CD. De lá para cá, foram dezenas de empreendimentos — do galpão convencional ao Triple A preparado para e-commerce. O padrão se repete: quem concebe pensando na operação entrega valor. Quem adapta depois, paga duas vezes.
Nas entrelinhas: Quando a logística de última milha virar critério de zoneamento urbano — e isso está mais perto do que parece — o profissional que souber projetar operação integrada à cidade vai ocupar um espaço que hoje não existe. Quem só projeta edifício vai perder essa demanda para quem entende fluxo, carga e giro de estoque dentro da malha urbana.
Em resumo
As fontes, dados de mercado e referências técnicas estão nas notas abaixo.
A última milha já está na sua rua — literalmente. A infraestrutura que ela precisa vai ser construída. A única questão é se quem projeta e constrói no Brasil vai liderar esse ciclo — ou vai assistir de fora, enquanto a logística continua operando no passeio.
Escrevo periodicamente aqui, no Linkedin... e também no Substack.
Sérgio Salles | www.arquiteto.com.br
Notas
Google (Alphabet) / Intersect: Em dezembro de 2025, a Alphabet (controladora do Google) adquiriu a Intersect, empresa de infraestrutura de datacenters e energia, por US$ 4,75 bilhões em dinheiro mais dívida. A Intersect desenvolve projetos que co-localizam geração de energia e datacenters, com 10,8 GW previstos até 2028. abc.xyz/investor
SpaceX — Datacenters Orbitais: Em janeiro de 2026, a SpaceX protocolou na FCC (Federal Communications Commission) pedido para até 1 milhão de satélites funcionando como datacenters em órbita, entre 500 e 2.000 km de altitude, com energia solar contínua e comunicação via rede Starlink. introl.com
Mercado Livre — Investimento 2026: A empresa anunciou em março de 2026 investimento de R$ 57 bilhões no Brasil (+50% sobre 2025), incluindo a abertura de 14 novos centros de distribuição (elevando o total para 42 no país) e a criação de 10 mil empregos. O Brasil responde por 52,6% da receita global da companhia. exame.com
Vacância e mercado de galpões logísticos no Brasil: Taxa de vacância nacional encerrou 2025 em 6,56%, mínima histórica (Cushman & Wakefield, Market Beat Industrial 4T/2025). Déficit projetado para 2026: ~500 mil m² em galpões classe A e A+ (Grupo EREA). Preço médio nacional: R$ 27,89/m²; São Paulo: R$ 30,54/m². Micro-centros de distribuição para última milha na capital paulista: até R$ 45/m². cushmanwakefield.com
Prologis — Bold Predictions 2026: Relatório projeta crescimento de dois dígitos em aluguéis logísticos no Brasil pelo quarto ano consecutivo, com vacância em trajetória de queda e oferta restrita de ativos modernos. prologis.com
E-commerce e penetração no Brasil: A penetração do e-commerce no país é de 17%, contra 27% nos EUA e 32% na China — o que sinaliza espaço significativo de crescimento e demanda futura por infraestrutura logística. E-commerce e varejo lideram a ocupação de galpões logísticos no Brasil. O e-commerce brasileiro faturou R$ 235 bilhões em 2025, crescimento de 15% sobre 2024 (Abiacom).
Micro-centro de distribuição (MFC — Micro-Fulfillment Center): Instalação compacta de armazenamento e processamento de pedidos, de 300 a 10.000 m², localizada em áreas urbanas densas, projetada para entregas em até 2 horas. Opera com estoque de alta rotatividade (24 a 48 horas) e pode incluir sistemas automatizados de armazenagem (AS/RS) e robôs móveis autônomos (AMRs). No Brasil, o formato ganha tração com o crescimento do e-commerce e a escassez de galpões urbanos.
Retrofit de galpões para logística urbana: Conversão de antigas fábricas e galpões industriais em instalações logísticas modernas. Em São Paulo, cerca de 40% do estoque de galpões na capital origina-se de retrofit. O processo exige adequação de piso, pé-direito, cobertura, instalações elétricas, sistemas de incêndio e docas. Prazo típico: 12 meses (contra 3+ anos para projetos novos em áreas urbanas).
Reforma Tributária e logística: A LC 214/2025 migra a tributação da origem para o destino, reconfigurando a lógica de localização de operações logísticas. O efeito prático: a proximidade ao centro de consumo ganha peso em relação a benefícios fiscais regionais. Transição de 2026 a 2033.