O que a velocidade me ensinou: lições da construção industrializada em escala real
Relato sobre aprendizados obtidos na construção industrializada em escala real, a partir da coordenação de projetos complexos, decisões técnicas sob pressão e execução acelerada em empreendimentos de grande porte.
Em 2013, a Premo registrou o maior faturamento de seus 55 anos — crescimento de 12% sobre o ano anterior. Produziu 300 mil metros quadrados de estruturas pré-fabricadas. Se alinhadas, essas estruturas percorreriam cerca de 100 quilômetros. Conquistou o Selo Excelência ABCIC Nível III, certificação que apenas cinco das 65 empresas filiadas possuíam.
Eu estava lá.
E a pergunta que me acompanha até hoje não é sobre os números. É outra: o que exatamente aprendi naquele ritmo de produção que não aprenderia em anos normais?
A decisão de 2012
Um ano antes do recorde, Hélio Dourado me fez o convite. Deixar a SGO Construções, onde havia construído seis anos de carreira como Gestor de Projetos, para assumir a gerência executiva de projetos na Premo.
O desafio era claro: acelerar o desenvolvimento de projetos por meio da coordenação de escritórios externos em São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Goiânia. Gerenciar um time de engenheiros, calculistas, arquitetos e projetistas. Manter a qualidade que cinco décadas de reputação exigiam.
A oportunidade de trabalhar com construção industrializada, em uma empresa que ajudou a escrever a história da engenharia brasileira, era difícil de recusar.
Aceitei.
O que 2013 ensinou sobre velocidade
O Shopping de Contagem cristaliza o que aprendi sobre execução sob pressão. Da contratação à inauguração: 12 meses. São 115 mil metros quadrados de área construída. Tempo recorde para um shopping no Brasil.
O projeto exigia soluções assimétricas. Peças que não seguiam padrões convencionais. Um cronograma que não admitia atrasos.
A obra recebeu Menção Honrosa no prêmio Obra do Ano da ABCIC.
Mas números escondem nuances. O que não aparece nos relatórios é a quantidade de decisões técnicas tomadas em tempo real. A coordenação entre fábrica, logística e canteiro. Os ajustes de projeto que aconteciam enquanto as peças já estavam sendo produzidas em Vespasiano.
Velocidade na construção industrializada não é fazer rápido. É antecipar problemas antes que eles existam.
O portfólio que construímos
Durante meu período na Premo, atuei em dezenas de empreendimentos em todo o Brasil. A diversidade era parte do desafio — e do aprendizado.
Infraestrutura urbana: o BRT São Gabriel e as Estações Move, em Belo Horizonte, exigiam vigas curvas com forte apelo arquitetônico. Não eram peças convencionais.
Shoppings e varejo: Shopping de Contagem, Via Shopping, BH Outlet. Cada um com suas particularidades estruturais e cronogramas apertados.
Industrial: MDE, Nestlé em Montes Claros, Biomm, Metalsider/Kuttner. Prazos definidos por linhas de produção que não esperam.
Educacional e hospitalar: laboratórios e restaurantes universitários para a UFV em Viçosa, Florestal e Rio Paranaíba. Fábricas de Escolas no Rio de Janeiro. Hospital de Ibirité.
Projetos especiais: o Espessador para a Anglo American no setor de mineração. O Estaleiro Jurong. O Deck Parking Hemisfério, em Betim.
E o Velódromo Olímpico.
Velódromo: quando o COI exigiu o inédito
O projeto do Velódromo para os Jogos Olímpicos Rio 2016 foi um marco técnico para a engenharia brasileira. O COI (Comitê Olímpico Internacional) exigiu algo que nunca havíamos contemplado em nossos projetos: uma estrutura capaz de resistir a colapso progressivo, mesmo em caso de atentado terrorista.
O conceito se chama PUF — Ponto Único de Falha. A estrutura precisava ser capaz de estancar a progressão de danos a partir de qualquer ponto comprometido, garantindo tempo para evacuação.
A Premo desenvolveu novas emendas de pilares com continuidade de armaduras. Criou detalhes de engastamento viga-pilar com nós extremamente rígidos. As arquibancadas foram projetadas com degraus esconsos, analisados dinamicamente.
A partir da concepção estrutural desenvolvida pelo engenheiro João Luís Casagrande (Casagrande Engenharia), do detalhamento estrutural conduzido por Flávio Isaía e Carlos Eduardo Gallego (IGA Engenharia) e da direção técnica do eng. Francisco Celso da Rocha, participamos do processo de adaptação do projeto para o sistema pré-fabricado e para a execução. Esse trabalho envolveu pilares, vigas, lajes alveolares e arquibancadas, bem como a montagem parcial e a solidarização dos vínculos, todas sob responsabilidade da Premo.
Nunca havia participado de algo com esse nível de exigência normativa internacional.
O valor do time
A questão não é apenas o que construímos. É a formação que acontece quando você trabalha com pessoas que sabem mais do que você em áreas específicas.
Francisco Celso me ensinou rigor técnico aplicado. Leonardo Pena — hoje Vice-Presidente da Ausenco — demonstrava visão de gestão estratégica. Newton Godoy trazia a experiência de décadas em pré-fabricados.
Conduzir equipes multidisciplinares, distribuídas em quatro estados, com dezenas de projetos correndo em paralelo, ensina o que nenhum curso consegue transmitir: humildade técnica.
Você aprende que não precisa saber tudo. Precisa saber perguntar certo.
O que permanece
Saí da Premo entendendo algo que não compreendia quando entrei: construção industrializada não é sobre peças pré-fabricadas. É sobre industrializar o pensamento.
Antecipar. Padronizar. Escalar qualidade sem escalar erros.
Os 300 mil metros quadrados de 2013 foram resultado de um sistema — não de esforço individual heroico. O recorde veio porque processos funcionavam. Porque a coordenação funcionava. Porque a confiança entre equipes funcionava.
A pergunta que me acompanha desde então não é se valeu a pena sair da SGO para aceitar o desafio de Hélio Dourado.
A pergunta é outra: quantas oportunidades de aprendizado acelerado deixamos passar por medo de mudar?
Ainda penso nisso.
Sérgio Salles é arquiteto, mestre em construção civil, gestor de projetos e professor na PUC Minas. Atua no desenvolvimento, coordenação e pesquisa aplicada em construção industrializada, integrando engenharia, método e tecnologias emergentes na construção civil. Saiba mais sobre sua trajetória em projetos e obras.
Fontes e referências
- ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DA CONSTRUÇÃO INDUSTRIALIZADA DE CONCRETO (ABCIC). São Paulo 2013 – Obra Premiada e Menções Honrosas de 2013. Informativo ABCIC, São Paulo, n. 18, dez. 2013.
- ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DA CONSTRUÇÃO INDUSTRIALIZADA DE CONCRETO (ABCIC). São Paulo 2015 – Estruturas Pré-Fabricadas de Concreto Confirmam o Legado da Copa de 2014 e Viabilizam as Obras das Olimpíadas. Industrializar em Concreto, São Paulo, n. 5, ago. 2015.
- DUARTE, Julia. Premo registrou faturamento recorde. Diário do Comércio, Belo Horizonte, Caderno Negócios, p. 49, 23 abr. 2014.