Vibe Coding é a palavra do ano — e eu passei 40 anos esperando por ela

Vibe coding é a programação por conversa: você descreve em linguagem natural e a IA gera o código. Neste artigo, mostro a origem do termo, ferramentas para AEC, um caso real na NEXT Arquitetura e um guia prático para começar.

Homem utilizando estação de trabalho com modelagem BIM em um monitor e scripts de automação desenvolvidos em ums sistema vibe coding
Fluxo de trabalho BIM acionado por código, combinando modelagem paramétrica e automações personalizadas

O que é vibe coding e por que foi eleito palavra do ano

Vibe coding é uma técnica de programação em que você descreve o que precisa em linguagem natural e a inteligência artificial gera o código funcional. O termo foi cunhado por Andrej Karpathy, ex-diretor de IA da Tesla, em fevereiro de 2025 — e em novembro o dicionário Collins o elegeu palavra do ano.

Não é autocompletar. Não é preencher lacunas. É uma nova interface: conversacional, descritiva, acessível a quem nunca programou.

Para mim, essa notícia chegou diferente. Representou o fim de uma frustração de quatro décadas.


40 anos tentando programar: minha jornada até o vibe coding

Nos anos 90, eu ajudava escritórios de arquitetura a automatizar processos no AutoCAD. Meu trabalho era ensinar, configurar, otimizar. Mas havia um limite que eu não conseguia ultrapassar: as rotinas LISP.

Eu entendia o que elas faziam. Sabia onde ajustar. Via exatamente onde o fluxo travava. E, mesmo assim, não conseguia mexer. Porque mexer exigia programar — e eu não programava.

Arquiteto trabalhando em um computador de mesa dos anos 90 com software CAD exibindo plantas arquitetônicas.
Ambiente CAD dos anos 90 utilizado para modelagem 2D de projetos arquitetônicos.

Em 1985, ganhei meu primeiro computador: um CP400 Color, pioneiro no Brasil com interface gráfica colorida. Fiz curso de Basic. A intenção era programar. Ficou na intenção.

Vieram décadas de tentativas: tutoriais de Python, promessas de "agora vai", cursos abandonados. Outras prioridades sempre venciam.

Esse padrão se repetiu por anos: eu chegava até a borda da automação, mas nunca cruzava para o outro lado. Porque do outro lado estava o código. E o código era território que eu não dominava.


Caso prático: sistema de gestão criado em 3 horas por US$ 25

Em novembro de 2025, na NEXT Arquitetura, eu precisava substituir as planilhas de CRM e financeiro. Procurei soluções comerciais. Todas exigiam customização cara para fazer o que eu realmente queria.

Resolvi testar o Lovable, uma plataforma de vibe coding.

Resultado:

  • Tempo de desenvolvimento: 3 horas
  • Custo total: US$ 25
  • Funcionalidades: CRM com pipeline, controle financeiro, dashboards integrados
  • Manutenção: 15 minutos por dia para aprimorar módulos

Os créditos não apenas foram suficientes — sobraram para criar recursos adicionais.

Tela de desenvolvimento do Lovable e apliacação voltada para gestão de escritórios de arquitetura
Desenvolvimento de aplicação para arquitetura através de vibe coding (Lovable)

Cinco meses antes, participei do Mastermind Obras Milionárias a convite do arquiteto Leonardo Rotsen.

Preparei uma palestra com atualizações sobre IA na construção civil e uma demonstração de Briefing Inteligente usando o Lovable.

Seis horas de esforço, todos os créditos consumidos. E o resultado... não esteve à altura do padrão que aplico ao meu trabalho.

Era protótipo. Bonitinho, mas protótipo.

O que mudou? As plataformas evoluíram. Os modelos ficaram mais precisos. Mas, principalmente, eu aprendi a conversar melhor com a máquina.


Ferramentas de vibe coding para arquitetura e construção (AEC)

O setor de Arquitetura, Engenharia e Construção absorve vibe coding de forma acelerada. Estas são as principais ferramentas disponíveis em 2025:

Ferramentas para Revit

  • BIMLOGIQ Copilot: comandos em linguagem natural dentro do Revit para criar plug-ins e automatizar tarefas
  • ArchiLabs (Y Combinator): scripts Python para automações avançadas

Ferramentas para Rhino e Grasshopper

  • GHPT: linguagem natural para criar definições no Grasshopper
  • RhinoMCP: integração conversacional com Rhino

Ferramentas para AutoCAD

  • CADGPT: comandos conversacionais para AutoCAD, que permite gerar rotinas LISP e script em C#

Plataformas generalistas de vibe coding

  • Lovable: criação de aplicações web completas por conversa
  • Cursor: IDE com IA integrada para desenvolvedores
  • Replit Agent: ambiente de desenvolvimento conversacional

Dados do mercado: adoção de código gerado por IA

Os números mostram a velocidade da mudança:

Google reporta mais de 25% do código escrito por IA; Microsoft indica até 30% em alguns times; 25% das startups do batch W25 da Y Combinator geram 95% do código com IA.

Eventos de 2025:

  • Autodesk University 2025 dedicou uma sessão dedicada a "AI-Driven Revit Vibe Coding"
  • Vibe-a-Thon em Phoenix reuniu profissionais criando soluções reais em um hackathon

Como começar com vibe coding: guia prático em 5 passos

1. Escolha uma dor real

Aquela planilha que irrita, o fluxo que ninguém quer fazer, a tarefa que trava o dia.

2. Teste uma plataforma

Lovable, Cursor ou Replit Agent. Planos gratuitos ou iniciais entre US$ 20 e US$ 50/mês.

3. Descreva intenção, não implementação

Diga o problema. Peça propostas. Deixe a IA estruturar a solução.

4. Trabalhe em blocos pequenos

Função por função. Teste. Depois a próxima.

5. Documente e revise

Esqueça a fantasia do "gera tudo de uma vez". Cada módulo precisa de validação.


Limitações do vibe coding: o que ainda não funciona

Seria fácil dizer que entendi tudo. Seria mentira.

Problemas reais que encontrei:

  • A IA erra em cerca de 20% dos casos
  • Sem estrutura na conversa, o código vira "espaguete"
  • Alucina variáveis que não existem
  • Exige revisão constante

Sem validação, o ganho de tempo se transforma em dívida técnica.

Há uma pergunta que ainda me acompanha: até onde dá para ir sem entender a lógica por trás do código? Para automações internas e fluxos de escritório, funciona. Para sistemas críticos, a arquitetura precisa ser mais robusta.


Impacto no mercado de software para arquitetura

Meu sócio na NEXT Arquitetura — que também tem participação em outra empresa de arquitetura — planeja migrar CRM e financeiro para a mesma base que desenvolvi. Estou criando módulos para acompanhamento de projetos.

Pensei até em transformar a solução em software comercial. Mas será que os softwares genéricos vão sobreviver quando qualquer profissional pode criar sua própria ferramenta em horas?

Aquela frustração dos anos 90 — olhar para a rotina LISP e saber que não conseguia mexer — não desapareceu completamente. Mas ganhou uma saída.

A interface entre mim e o código deixou de ser sintaxe. Tornou-se conversa.


O futuro do vibe coding na prática arquitetônica

Se hoje construo um sistema de gestão em horas, imagino o que virá quando essas plataformas amadurecerem.

Aplicações que visualizo para os próximos anos:

  • Arquitetos criando softwares BIM personalizados e customizados aos processos de trabalho da empresa.
  • Modelos BIM integrados a dashboards sem tocar em código
  • Simulações e automações disparadas por comandos em linguagem natural

Algo como: "Simule a iluminação e temperatura deste ambiente às 16h em outubro, considere duas opções, com e sem o brise." E a ferramenta simplesmente responde.

Não é ficção científica. Os ingredientes já existem. Falta apenas a cola — e o vibe coding pode ser exatamente isso.

Dois profissionais interagindo com modelos 3D e painéis digitais, utilizando interfaces holográficas para simular uma cidade com apoio de IA
Fluxo de projeto com IA multimodal, integrando modelos 3D, dashboards e comandos naturais.

Conclusão: a barreira entre intenção e automação está caindo

Passei 40 anos tentando aprender a programar. Agora aprendo a descrever o que preciso.

A grande questão não é se a mudança vai atingir seu escritório. Ela já começou.

A questão real é: o que você faria se a barreira que te impedia de automatizar simplesmente… diminuísse?


Perguntas frequentes sobre vibe coding

O que significa vibe coding?Vibe coding é uma técnica de programação em que você descreve o que precisa em linguagem natural e a inteligência artificial gera o código funcional. O termo foi cunhado por Andrej Karpathy em 2025.

Preciso saber programar para usar vibe coding?Não. O vibe coding foi criado justamente para permitir que pessoas sem conhecimento de programação criem software funcional através de conversas com IA.

Quais são as melhores ferramentas de vibe coding para arquitetos?Para o setor AEC, destacam-se: BIMLOGIQ Copilot e ArchiLabs (Revit), GHPT e RhinoMCP (Rhino/Grasshopper), CADGPT (AutoCAD), e plataformas generalistas como Lovable, Cursor e Replit Agent.

Quanto custa começar com vibe coding?Plataformas como Lovable, Cursor e Replit Agent oferecem planos gratuitos ou iniciais entre US$ 20 e US$ 50/mês.

Vibe coding substitui programadores?Não substitui, mas muda o papel. Programadores passam a revisar, validar e arquitetar sistemas, enquanto a IA gera o código inicial. Para sistemas críticos, conhecimento técnico continua essencial.


Sérgio Salles é arquiteto, mestre em construção civil, gestor de projetos e professor na PUC Minas. Atua no desenvolvimento, coordenação e pesquisa aplicada em construção industrializada, integrando engenharia, método e tecnologias emergentes na construção civil. Saiba mais sobre sua trajetória em projetos e obras.