Do desenho à regra: como a IA redefine o projeto
A IA não está apenas acelerando o projeto — está mudando o que significa projetar. Quando a geometria passa a ser resolvida pelo sistema, o que resta para o arquiteto?
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Um artigo recente de Martyn Day na AEC Magazine me fez repensar o que estamos chamando de "processo de projeto".
O que me chamou atenção
A inteligência artificial não está apenas acelerando o processo de projeto — está alterando o que significa projetar. Em disciplinas com restrições bem definidas, o trabalho está deixando de ter a modelagem geométrica como tarefa central — e passando a ser configurar requisitos que sistemas resolvem automaticamente. A velocidade é o sintoma mais visível dessa mudança.
O projeto de instalações elétricas de um laboratório, que levaria 125 horas para desenvolvimento, foi concluído em 57 horas. Foram 3,2 km de eletrodutos gerados automaticamente, a partir das restrições predefinidas, em um trabalho colaborativo entre o projetista e a IA. A equipe ainda estudou alternativas de caminhamento, baseadas em custos de instalação.
O caso é da plataforma Augmenta, que transforma parâmetros normativos em geometria de instalações sem modelagem manual. Produtividade até 3× superior — não porque alguém desenhou mais rápido — mas porque o desenho deixou de ser a tarefa central.
O ponto
Resultados como esse já são realidade para elétrica, hidráulica, estrutura e HVAC — disciplinas onde normas, cargas e dimensionamentos seguem critérios técnicos objetivos. A geometria deixa de ser modelada e passa a ser resolvida pelo sistema.
Na arquitetura, a evolução segue outro vetor. Ferramentas classificadas como BIM 2.0 — Autodesk Forma, Hypar, TestFIT, Finch3D, entre outras — já oferecem análises instantâneas de insolação, ventilação e energia, composição de alternativas, layout de ambientes e vagas de estacionamento, recalculadas em tempo real conforme o projeto muda. O ganho não está em modelar mais rápido. Está em decidir melhor, mais cedo. Ainda assim, nenhuma dessas ferramentas fecha o ciclo completo baseado em requisitos — em que o projetista define restrições e o sistema gera, verifica e propõe soluções de ponta a ponta.
É nessa direção que o processo caminha: da modelagem geométrica como tarefa central para a modelagem de requisitos como base — onde a forma continua sendo decisão do arquiteto, mas sustentada por restrições que o sistema processa.
Esse é o próximo passo inevitável: um auditório projetado para 150 pessoas. Ao alterar a capacidade para 300, o sistema deveria alertar automaticamente que as saídas de emergência não atendem à norma, propor redimensionamento das rotas de fuga e adequar o número de sanitários à nova lotação. Um Neufert ampliado que roda em código, em tempo real, sobre o modelo.
E isso redesenha o papel do arquiteto e coordenador de projetos.
Ao longo da minha trajetória, vi esse papel evoluir de fiscal de prancheta para gestor de modelo. A próxima transição é para designer de regras e curador de decisões: definir as restrições que orientam os sistemas, validar as respostas e negociar com a equipe qual cenário seguir.
Em resumo
Disciplinas técnicas já entregam produtividade até 3× superior com restrições bem parametrizadas. Na arquitetura, o salto vem por análises em tempo real. O arquiteto e coordenador que perceberem essa virada lideram a transição.
A vantagem competitiva deixa de estar apenas em quem modela melhor — e cresce para quem estrutura melhor as regras do jogo. Comece por uma pergunta: das regras que você confere manualmente toda semana, qual poderia ser incorporada como requisito automático no sistema?
Escrevo periodicamente aqui, no LinkedIn... e também no Substack.
Sérgio Salles | www.arquiteto.com.br
Notas
AEC Magazine — "The Agentic Future of BIM": Artigo de Martyn Day que analisa a transição do BIM de ferramenta de modelagem manual para substrato computacional operado por agentes de IA e solucionadores. Aborda o fim da "fase LEGO do BIM", a assimetria entre disciplinas de engenharia e arquitetura, e o conceito de geometria como código. aecmag.com
Augmenta: Plataforma de automação de projetos de instalações elétricas e hidrossanitárias (Toronto). O caso citado — laboratório (125h→57h, 3,2 km de eletrodutos) — é relato publicado em augmenta.ai/electrical. A plataforma reporta produtividade até 3× superior em projetos de diferentes escalas. augmenta.ai
BIM 2.0: Geração de ferramentas cloud-native com análises e automações integradas ao modelo. Autodesk Forma (insolação, vento, energia), Hypar (geração paramétrica e cenários), TestFIT (composição de layouts, viabilidade e vagas de estacionamento) e Finch3D (otimização de layouts e circulações). forma.autodesk.com · hypar.io · testfit.io · finch3d.com
Modelagem de requisitos vs. modelagem geométrica: Paradigma emergente em que restrições (normas, custos, desempenho) são os inputs e a geometria é o output — invertendo a sequência tradicional de modelar primeiro e verificar depois. Nenhuma ferramenta oferece hoje esse ciclo completo para arquitetura.
Neufert — Arte de Projetar em Arquitetura: Referência enciclopédica criada por Ernst Neufert em 1936 com dados dimensionais, ergonômicos e normativos para projeto arquitetônico. Publicada em mais de 40 edições e traduzida para dezenas de idiomas, foi o principal repositório de restrições projetuais do arquiteto antes da era digital — uma espécie de "bíblia" da profissão.